A conversa mais comum entre donos de ótica é sobre "quantas vezes" se multiplica o custo. Três vezes na armação, duas e meia na lente. O problema é que esse número — o markup — não diz quanto sobra.
E quase sempre sobra menos do que se imagina.
Markup e margem não são a mesma coisa
Essa confusão custa dinheiro todo mês.
Markup é o multiplicador sobre o custo. Margem é o percentual sobre a venda.
Uma armação que custa R$ 100 e é vendida por R$ 300:
Markup = 300 ÷ 100 = 3× (ou 200%)
Margem = (300 − 100) ÷ 300 = 66,7%
Markup de 200% vira margem de 66,7%. Quem acha que está com 200% de margem está superestimando o próprio lucro em três vezes.
Para converter:
Margem = (markup − 1) ÷ markup
O que quase ninguém desconta
A margem bruta acima (66,7%) ainda não é lucro. Faltam quatro descontos que acontecem em toda venda de ótica:
1. Comissão do vendedor. Se é 5% sobre a venda, são R$ 15 dos R$ 300.
2. Taxa do cartão. As taxas variam muito por adquirente e por volume, então pegue as suas no extrato em vez de usar as de um artigo. O padrão é o mesmo em qualquer lugar: débito é a menor, crédito à vista sobe um pouco, e o parcelado longo sobe bastante quando a ótica absorve os juros. Numa venda de R$ 300 parcelada, a taxa costuma custar mais que a comissão do vendedor.
3. Impostos. No Simples Nacional, comércio começa em 4% e sobe com o faturamento. Considere a alíquota efetiva da sua faixa, não a inicial.
4. Retrabalho de lentes. Este é o custo invisível. Toda lente que volta para refação é paga duas vezes, e esse custo fica diluído em todas as outras vendas em vez de aparecer no pedido que o gerou.
Refazendo a conta na armação de R$ 300 (custo R$ 100), vendida parcelada em 6× com comissão de 5% e Simples de 8%:
| Linha | Valor |
|---|---|
| Venda | R$ 300,00 |
| Custo da armação | − R$ 100,00 |
| Comissão (5%) | − R$ 15,00 |
| Taxa de cartão (~7%) | − R$ 21,00 |
| Simples (8%) | − R$ 24,00 |
| Margem de contribuição | R$ 140,00 (46,7%) |
Ainda é boa. Mas é 46,7%, não 200%. E dela ainda saem aluguel, folha, energia e a sua retirada.
O ponto de equilíbrio importa mais que a margem
Margem alta em volume baixo não paga a conta. O número que decide se o mês fecha é este:
Ponto de equilíbrio (R$) = despesas fixas ÷ margem de contribuição %
Uma ótica com R$ 22.000 de despesas fixas e margem de contribuição média de 46,7%:
22.000 ÷ 0,467 = R$ 47.109 de faturamento por mês
Abaixo disso, o mês dá prejuízo — mesmo vendendo com "três vezes de margem". Acima disso, cada real vendido contribui com 46,7 centavos.
Saber esse número muda a decisão de balcão. Um desconto de 10% num pedido de R$ 800 parece pequeno. Ele tira R$ 80 do faturamento e, é justo dizer, comissão, taxa de cartão e imposto caem junto — uns R$ 16 voltam. O efeito líquido é R$ 64 a menos de margem, sobre os R$ 374 que aquela venda ia contribuir. São 17% do resultado do pedido entregues para fechar mais rápido.
Lente e armação precisam de margens diferentes
Tratar as duas com o mesmo multiplicador é comum e errado.
Armação carrega o custo de estoque: ela fica meses na vitrine antes de vender, e algumas nunca vendem. Esse custo de carregamento precisa estar no preço. Markup mais alto se justifica.
Lente normalmente é comprada depois de vendida — não imobiliza capital. Mas carrega risco de retrabalho, prazo e o custo de atendimento técnico (a receita, a medição, o ajuste). O que precifica a lente não é estoque, é serviço e risco.
Consequência prática: a lente pode operar com markup menor e ainda ser mais rentável por real investido, porque o dinheiro não fica parado. Vale calcular o retorno separadamente para cada uma.
Desconto: a regra de bolso que evita o prejuízo
Quando o cliente pede desconto, a pergunta certa não é "quanto posso dar" — é "quanto de venda extra esse desconto precisa gerar para empatar".
Aumento de volume necessário = desconto% ÷ (margem% − desconto%)
Com margem de contribuição de 46,7% e desconto de 10%:
10 ÷ (46,7 − 10) = 27%
Você precisa vender 27% a mais só para ficar no mesmo lugar. Com desconto de 20%, precisa vender 75% a mais. É por isso que desconto agressivo derruba o resultado mesmo com a loja cheia.
A fórmula é a versão conservadora: ela trata o desconto inteiro como perda de margem. Na prática, comissão, taxa e imposto caem junto com o preço, então o número real fica um pouco abaixo. Serve como teto, e para decisão de balcão um teto é mais útil que a precisão.
Cinco ajustes que aumentam a margem sem aumentar o preço
- Reduzir retrabalho de lentes. Cada refação come a margem inteira daquele pedido. Conferência de receita e medição bem feita valem mais que aumento de preço.
- Reduzir prazo médio de parcelamento. Migrar da média de 8× para 5× recupera vários pontos de taxa.
- Girar a classe C. Armação parada há 300 dias já custou carregamento; liquidar cedo dói menos que liquidar tarde.
- Negociar por volume nos modelos A. São poucos modelos e a maior parte do custo — é ali que negociação tem efeito.
- Vender o segundo par. A margem do segundo óculos é maior: o custo de atendimento, receita e medição já foi pago pelo primeiro.
O que acompanhar
Três números, todo mês:
- Margem de contribuição % — por categoria (armação, lente, acessório), não só a média.
- Ticket médio — e o que entra nele: quantos pedidos levam lente antirreflexo, segundo par, acessório.
- Distância do ponto de equilíbrio — quantos dias do mês você trabalhou só para pagar o fixo.
Faturamento crescendo com margem caindo é o padrão de ótica que quebra com a loja cheia. Só dá para ver esses três lado a lado.
