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Controle de estoque para óticas: o guia que funciona na prática

Como organizar armações, lentes e acessórios sem virar refém da planilha — curva ABC, giro por modelo, inventário rotativo e os erros que mais custam caro.

5 min de leitura
Parede de armações expostas no mostruário de uma ótica
Foto: Scott Van Daalen / Unsplash
Neste artigo
  1. Separe o estoque em três naturezas diferentes
  2. Faça a curva ABC das armações — uma vez, direito
  3. Defina o ponto de reposição antes de precisar dele
  4. Inventário rotativo, não inventário anual
  5. Os cinco erros que mais custam caro
  6. O que medir todo mês
  7. Onde um sistema ajuda de verdade

Estoque parado é dinheiro parado na vitrine. Na maioria das óticas pequenas, a maior parte do capital de giro está imobilizada em armações, e uma fatia desconfortável dele em modelos que não vendem há meses. Se você nunca calculou essa fatia, ela costuma ser maior do que a intuição diz.

O problema quase nunca é falta de controle. É controle no lugar errado: uma planilha em que só uma pessoa sabe mexer, uma contagem anual em que ninguém confia, e decisões de compra tomadas pela memória do vendedor.

Este guia mostra como sair disso.

1. Separe o estoque em três naturezas diferentes

Armação, lente e acessório não se comportam do mesmo jeito. Tratar os três com a mesma regra é a origem de metade dos problemas.

Armações são estoque físico, com giro lento e alta variação de modelo. Você compra para expor. O risco é obsolescência: a coleção envelhece.

Lentes são, na maioria das óticas, estoque sob encomenda: você compra depois de vender. O risco não é obsolescência, é prazo e retrabalho. O que precisa ser controlado aqui é o pedido em aberto no laboratório, não a peça na gaveta.

Acessórios (estojos, flanelas, líquidos, cordões) têm giro rápido e valor unitário baixo. Não merecem controle item a item, mas não podem faltar. Ponto de reposição simples resolve.

Se sua planilha trata os três em uma aba só, ela está te dando um número que não significa nada.

2. Faça a curva ABC das armações — uma vez, direito

Pegue as vendas dos últimos 12 meses e ordene os modelos por faturamento acumulado.

  • Classe A — os ~20% dos modelos que geram ~80% do faturamento. Nunca podem faltar.
  • Classe B — os intermediários. Reposição normal, sem urgência.
  • Classe C — a cauda longa. Aqui mora o dinheiro parado.

O número que interessa não é quantas peças você tem. É quantos dias de estoque cada classe representa:

Dias de estoque = (peças em estoque ÷ peças vendidas no período) × dias do período
Modelos no mostruário A · 20% B · 30% C · 50% Faturamento em 12 meses A · 80% B · 15% C · 5% Classe A Classe B Classe C
A mesma loja, contada de dois jeitos. A classe C ocupa metade do mostruário e responde por 5% do faturamento: é ali que o capital de giro fica preso. Proporções típicas de uma curva ABC, não uma medição do setor.

Uma armação classe C com 400 dias de estoque não é patrimônio, é prejuízo em câmera lenta. Ela vai sair na liquidação, com margem negativa, daqui a um ano.

3. Defina o ponto de reposição antes de precisar dele

Reposição por "achei que estava acabando" gera dois erros ao mesmo tempo: falta do que vende e sobra do que não vende.

A conta é simples:

Ponto de reposição = (venda média diária × prazo de entrega em dias) + estoque de segurança

Exemplo real: um modelo classe A que vende 6 peças/mês (0,2/dia), com fornecedor que entrega em 20 dias e estoque de segurança de 2 peças:

(0,2 × 20) + 2 = 6 peças

Quando esse modelo chega a 6 peças, você já deveria ter comprado. Não quando chega a zero e o cliente vai embora.

4. Inventário rotativo, não inventário anual

O inventário geral de fim de ano é ruim por três motivos: fecha a loja, cansa a equipe e descobre a divergência 11 meses depois que ela aconteceu.

Troque por rotativo:

  • Classe A — contar mensalmente (são poucos modelos, leva minutos).
  • Classe B — contar trimestralmente.
  • Classe C — contar semestralmente.

Cada contagem é curta e cabe numa manhã calma. E quando uma divergência aparece, ela é recente o suficiente para você descobrir a causa.

5. Os cinco erros que mais custam caro

  1. Comprar por coleção inteira. O representante fecha um mix de 30 peças e 8 são invendáveis na sua praça. Compre por modelo, com base no que já girou.
  2. Não dar baixa na hora da venda. Baixa no fim do dia vira baixa no fim da semana, que vira estoque fictício.
  3. Ignorar a armação em consignação. Ela está na sua vitrine, ocupa espaço de venda, e frequentemente some do controle.
  4. Tratar armação quebrada/mostruário como estoque bom. Infla o patrimônio e distorce a contagem.
  5. Não registrar a origem da saída. Venda, garantia, quebra e brinde saem do estoque pelo mesmo caminho, e depois é impossível saber onde o dinheiro foi.

6. O que medir todo mês

Cinco números. Não mais que isso.

Indicador Como calcular O que observar
Giro de estoque CMV (custo da mercadoria vendida) ÷ estoque médio Caindo mês a mês
Cobertura em dias Estoque ÷ venda média diária Subindo sem plano de compra novo
% do estoque parado 180d+ Valor parado ÷ valor total Qualquer tendência de alta
Ruptura em classe A Modelos A zerados no mês Qualquer valor acima de zero
Divergência de inventário Diferença ÷ contado Piorando entre contagens

Repare que a coluna da direita fala em direção, não em números de corte. Não confie em benchmark de artigo: o giro saudável de uma ótica de bairro com foco em armação popular não é o de uma loja de rua com grife. Meça três meses, estabeleça a sua linha de base e passe a comparar a ótica com ela mesma.

Se você acompanhar só esses cinco, já está à frente da maioria.

Onde um sistema ajuda de verdade

Nada acima exige software: exige disciplina. O que o software faz é remover o custo da disciplina: a baixa acontece sozinha na venda, o ponto de reposição avisa antes de faltar, e a curva ABC é uma tela em vez de uma tarde de planilha.

O ganho maior não é o relatório. É que a informação para de depender de alguém lembrar de atualizar.