Em ótica, o cartão parcelado é quase regra. Um multifocal de R$ 1.500 raramente é pago à vista. E cada parcela que o cliente não paga com juros, a loja paga em taxa.
A taxa da maquininha é uma das maiores despesas de uma ótica, e uma das menos olhadas. Ela não aparece como boleto no fim do mês: simplesmente o dinheiro cai menor na conta.
Este artigo mostra como descobrir quanto você paga de verdade, quanto isso pesa por mês e como repassar sem errar a conta.
O que você paga, em palavras simples
A maquininha cobra, em geral, três coisas:
- A taxa por venda (o mercado chama de MDR). É um percentual de cada venda. Débito costuma ser a menor, crédito à vista um pouco mais, e o parcelado sobe conforme o número de parcelas.
- A antecipação. Numa venda em 10 vezes, o dinheiro cai uma parcela por mês. Se você quer receber tudo antes, a operadora cobra mais um percentual por isso.
- O aluguel ou a compra do aparelho, em alguns contratos.
Os percentuais variam muito entre operadoras e conforme o volume da loja. Por isso, não use números de artigo: pegue os seus no contrato e no extrato.
Como descobrir a sua taxa real
O contrato diz o que deveria ser cobrado. O extrato diz o que foi cobrado. Confira os dois.
Para cada venda no extrato da maquininha, há um valor bruto (o que o cliente pagou) e um valor líquido (o que caiu para você). A taxa real é:
Taxa real = (bruto − líquido) ÷ bruto
Uma venda de R$ 1.000 em 10 vezes que rendeu R$ 940,10 líquidos:
(1.000 − 940,10) ÷ 1.000 = 5,99%
Faça isso para algumas vendas de cada tipo (débito, crédito à vista, parcelado curto, parcelado longo) e compare com o contrato. Divergências acontecem, e só quem confere descobre.
Quanto isso pesa no mês
A taxa de uma venda parece pequena. Somada no mês, não é.
Imagine uma ótica que fatura R$ 60.000 por mês, com este mix de pagamentos:
| Forma de pagamento | Parte das vendas | Taxa (exemplo) | Custo no mês |
|---|---|---|---|
| Pix e dinheiro | 25% | 0% | R$ 0 |
| Débito | 15% | 1,5% | R$ 135 |
| Crédito | 60% | 7,3% (média) | R$ 2.628 |
| Total | 4,6% | R$ 2.763 |
São quase R$ 2.800 por mês, ou mais de R$ 33 mil por ano. Em muitas óticas, é mais do que o aluguel.
A calculadora de taxa da maquininha faz essa conta com o seu faturamento e as suas taxas.
Quatro jeitos de repassar
Não há uma resposta certa para todo mundo. Mas há quatro caminhos, e dá para combinar mais de um.
1. A taxa já está no preço
É o caminho mais comum: o preço de tabela já inclui a taxa média da loja. No exemplo, 4,6%. O artigo sobre como calcular o preço de venda de óculos mostra como colocar esse percentual na conta.
O risco é a média mudar. Se a loja passa a vender mais em 10 vezes do que vendia, a taxa média sobe e o preço fica defasado sem ninguém perceber.
2. Desconto para pagamento à vista
A Lei 13.455/2017 permite cobrar preços diferentes conforme o prazo ou a forma de pagamento. A condição é informar o desconto em local visível ao cliente.
Na prática: o preço de tabela inclui a taxa, e quem paga no Pix ou em dinheiro ganha um desconto. Se o desconto for perto da taxa média que você pagaria no cartão, a margem fica a mesma, e o cliente sente que ganhou algo.
3. Parcelas sem juros até um limite
Por exemplo: até 5 vezes sem juros, e de 6 a 10 vezes com acréscimo. A loja absorve a taxa do parcelado curto, que é menor, e repassa a do longo, que pesa mais.
4. Parcelado com juros pago pelo cliente
Muitas maquininhas permitem que o cliente pague os juros do parcelamento. Em geral, a loja recebe como numa venda de crédito à vista, e o cliente vê o valor da parcela com juros antes de confirmar. Confira se a sua operadora oferece e quais são as condições.
A conta certa para repassar (e a errada)
Este é o erro mais comum, e ele custa pouco por venda e muito no ano.
O cliente quer pagar R$ 1.000 em 10 vezes, e a taxa do 10× é 5,99%. O vendedor soma 5,99% ao preço:
1.000 + 5,99% = R$ 1.059,90
A maquininha desconta 5,99% sobre os R$ 1.059,90:
1.059,90 × (1 − 0,0599) = R$ 996,41
Faltaram R$ 3,59. Pouco numa venda, mas é um erro que se repete em toda venda parcelada.
A conta certa é dividir, porque a taxa incide sobre o valor cobrado, não sobre o valor que você quer receber:
Valor a cobrar = valor que você quer receber ÷ (1 − taxa)
1.000 ÷ (1 − 0,0599) = R$ 1.063,72
Conferindo: 1.063,72 × 0,9401 = R$ 1.000,00. Agora fecha.
Vale para qualquer repasse: a taxa da maquininha, a comissão, o imposto. Percentual que incide sobre o preço de venda se calcula dividindo.
Antecipação: só quando o caixa precisa
Antecipar recebíveis é cômodo, mas é dinheiro emprestado. Numa venda em 3 vezes com taxa de 4,59% e antecipação de 1,5%, a loja paga 6,09% para ter o dinheiro em um dia em vez de em até três meses.
Antes de deixar a antecipação automática ligada, pergunte: o caixa precisa desse dinheiro agora? Se não precisa, a antecipação é só uma taxa a mais.
Confira também como a sua operadora calcula a antecipação: há contratos com um percentual fixo e outros que cobram por mês antecipado. A diferença, num parcelado longo, é grande.
Como negociar a taxa
- Compare pelo seu mix, não pela taxa do débito. Uma oferta com débito baixo e parcelado alto pode sair mais cara para uma ótica, que vende muito parcelado. Faça a conta da tabela acima com as taxas de cada proposta.
- Use o seu volume. Com o faturamento dos últimos meses em mãos, peça uma revisão. Operadoras costumam ter faixas de taxa por volume.
- Leve as divergências. Se o extrato mostrou cobranças acima do contrato, isso entra na conversa.
- Revise uma vez por ano. O mercado muda, e a taxa que era boa há dois anos pode não ser mais.
O que acompanhar
- Taxa média do mês: total pago em taxas ÷ total vendido.
- Parte das vendas em parcelado longo: se sobe, a taxa média sobe junto.
- Diferença entre o contratado e o cobrado: deveria ser zero.
Onde o sistema ajuda
No LinceIA, as taxas e os prazos da maquininha ficam em Formas de pagamento, por loja: uma tabela de taxa por número de parcelas no crédito, a taxa do débito e do Pix, e a antecipação, se você usa. Com isso, cada venda no cartão já nasce com a agenda dos repasses, o fluxo de caixa mostra quanto vai cair e quando, e o DRE mostra a linha Taxas de cartão no mês.
A conciliação compara o que deveria cair com o extrato do banco ou o relatório da maquininha, e mostra quando a operadora cobrou mais do que a taxa informada. O LinceIA não se integra à maquininha: a venda é cobrada no aparelho à parte, e as taxas são digitadas por você.