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Como calcular o preço de venda de óculos na ótica

O passo a passo do markup divisor com impostos, taxa da maquininha, comissão e despesas fixas, com exemplos de armação e lente em reais.

7 min de leitura
Neste artigo
  1. Antes de começar: os quatro números de que você precisa
  2. Passo 1: o que sai de toda venda
  3. Passo 2: as despesas fixas como percentual
  4. Passo 3: o lucro que você quer
  5. Passo 4: o markup divisor
  6. O erro que dá prejuízo sem ninguém perceber
  7. Lente: mesma conta, outro custo
  8. E se o preço calculado ficar acima do mercado?
  9. Desconto: faça a conta antes de dar
  10. Revise uma vez por ano, ou quando algo mudar
  11. Onde o sistema ajuda

Muita ótica define preço assim: pega o custo, multiplica por dois e meio ou três, e arredonda. Às vezes dá certo. Mas ninguém sabe dizer quanto sobra de cada venda, e o mês termina com a loja cheia e a conta apertada.

Existe um jeito simples de calcular o preço a partir do que realmente sai de cada venda. Leva dez minutos para montar uma vez, e depois serve para todo produto.

Antes de começar: os quatro números de que você precisa

Para precificar direito, tenha à mão:

  1. O custo do produto. O que você pagou pela armação, ou o que o laboratório cobra pelo par de lentes, com tratamento e frete.
  2. Os percentuais que saem de toda venda. Imposto, taxa da maquininha e comissão.
  3. As despesas fixas da loja, como percentual do faturamento.
  4. O lucro que você quer, também em percentual.

Os dois primeiros você tira do extrato e do contrato. Os dois últimos pedem uma conta rápida, que vem logo abaixo.

Passo 1: o que sai de toda venda

São os custos que crescem junto com o preço. Vender mais caro faz cada um deles crescer junto.

Imposto. No Simples Nacional, o comércio fica no Anexo I da Lei Complementar 123, que começa em 4% e sobe com o faturamento dos últimos 12 meses. O que importa é a sua alíquota efetiva, não a da tabela. Uma ótica que faturou R$ 600 mil em 12 meses paga perto de 7,2%:

(600.000 × 9,5% − 13.860) ÷ 600.000 = 7,19%

Seu contador sabe esse número de cabeça. Peça a ele.

Taxa da maquininha. Cada forma de pagamento tem uma taxa diferente, então use a média ponderada do que a loja recebe. Um exemplo:

Forma de pagamento Parte das vendas Taxa média Peso
Pix e dinheiro 25% 0% 0%
Débito 15% 1,5% 0,23%
Crédito (à vista e parcelado) 60% 7,3% 4,38%
Média da loja 4,6%

As taxas acima são só um exemplo. Pegue as suas no contrato ou no extrato. Se quiser fazer a conta com calma, a calculadora de taxa da maquininha ajuda.

Comissão. Se o vendedor ganha 5% sobre a venda, são 5%.

Somando: 7,2% + 4,6% + 5% = 16,8% de toda venda já tem dono antes de você pagar qualquer conta.

Passo 2: as despesas fixas como percentual

Aluguel, salários, contador, energia, internet, sistema, sua retirada. Some tudo o que a loja paga por mês, vendendo ou não.

Depois divida pelo faturamento médio dos últimos meses:

Despesas fixas % = despesas fixas do mês ÷ faturamento médio do mês

Uma loja com R$ 15.000 de despesas fixas e R$ 60.000 de faturamento médio:

15.000 ÷ 60.000 = 25%

Ou seja: de cada R$ 100 vendidos, R$ 25 vão para manter a porta aberta.

Passo 3: o lucro que você quer

Esse é o que sobra depois de tudo. Não existe número certo para todo mundo, mas ele precisa estar na conta. Se não estiver, o preço só empata.

No exemplo, vamos usar 10%.

Passo 4: o markup divisor

Agora some todos os percentuais:

Imposto 7,2% + maquininha 4,6% + comissão 5% + fixas 25% + lucro 10% = 51,8%

Isso quer dizer que, de cada venda, 51,8% já está comprometido. Sobram 48,2% para pagar o custo do produto. Então:

Preço de venda = custo ÷ (1 − 0,518)
Preço de venda = custo ÷ 0,482

Esse 0,482 é o markup divisor. Para uma armação que custou R$ 120:

120 ÷ 0,482 = R$ 248,96

Arredondando, R$ 249. Na prática, é o mesmo que multiplicar o custo por 2,07.

Confira se a conta fecha:

Linha Valor
Preço de venda R$ 249,00
Custo da armação − R$ 120,00
Imposto (7,2%) − R$ 17,93
Maquininha (4,6%) − R$ 11,45
Comissão (5%) − R$ 12,45
Despesas fixas (25%) − R$ 62,25
Lucro R$ 24,92 (10%)

Fecha. Os 10% que você pediu estão lá.

Para fazer essa conta com os seus números, use a calculadora de preço de venda de óculos.

O erro que dá prejuízo sem ninguém perceber

O erro mais comum é somar os percentuais sobre o custo, em vez de dividir.

Com a mesma armação de R$ 120 e os mesmos 51,8%:

120 + 51,8% de 120 = R$ 182,16

Parece razoável. Mas os percentuais incidem sobre o preço de venda, não sobre o custo. Refazendo:

  • Imposto, maquininha, comissão e fixas: 41,8% de R$ 182,16 = R$ 76,14
  • Sobra: 182,16 − 120 − 76,14 = − R$ 13,98

Cada armação vendida assim dá prejuízo. E ninguém vê, porque o caixa entra.

Lente: mesma conta, outro custo

A lente segue a mesma fórmula. A diferença está no que entra como custo.

Para uma lente sob encomenda, o custo é o que o laboratório cobra pelo par, com tratamento. Se a montagem é feita na loja, o tempo dela já está nas despesas fixas. Se é paga à parte, entra no custo.

Um par de lentes multifocais com antirreflexo que custa R$ 380 no laboratório, com lucro desejado de 12%:

Percentuais: 7,2 + 4,6 + 5 + 25 + 12 = 53,8%
Divisor:     1 − 0,538 = 0,462
Preço:       380 ÷ 0,462 = R$ 822,51

Daí você arredonda para o preço que faz sentido na sua tabela, para cima.

Uma observação: a lente não fica parada no estoque, mas carrega risco de refação. Se a sua loja refaz muitas lentes, esse custo precisa entrar em algum lugar. O jeito mais honesto é reduzir a refação (o artigo como reduzir o retrabalho de lentes mostra como) em vez de esconder o problema no preço.

E se o preço calculado ficar acima do mercado?

Acontece. E é uma informação valiosa, não um problema da fórmula.

Se a conta mandou vender por R$ 249 e a concorrência vende parecido por R$ 199, uma destas coisas precisa mudar:

  • O custo. Dá para negociar com o fornecedor, ou trocar de modelo?
  • As despesas fixas. 25% é muito para a sua realidade? Às vezes o problema é vender pouco, não gastar muito. O ponto de equilíbrio da ótica mostra quanto você precisa faturar.
  • O mix de pagamento. Se o parcelado longo puxa a taxa média para cima, o artigo sobre taxa da maquininha mostra como repassar.
  • O lucro. Pode ser menor neste produto, desde que outros compensem.

O que não dá é vender abaixo do preço calculado sem saber. Aí o prejuízo vira rotina.

Desconto: faça a conta antes de dar

O desconto sai inteiro do lucro, porque o custo da armação não muda.

Na armação de R$ 249, um desconto de 10% são R$ 24,90. Imposto, maquininha e comissão caem um pouco junto (uns R$ 4), mas o lucro de R$ 24,92 praticamente desaparece.

Em outras palavras: com 10% de lucro, 10% de desconto é vender de graça. Antes de dar desconto, saiba qual é a sua margem. O artigo margem de lucro em ótica aprofunda essa conta.

Revise uma vez por ano, ou quando algo mudar

Os percentuais mudam. A alíquota do Simples sobe quando o faturamento cresce. A maquininha muda a taxa. O aluguel reajusta. Um vendedor novo entra com outra comissão.

Refaça o divisor quando:

  • o contador avisar que você mudou de faixa no Simples;
  • você trocar de maquininha ou renegociar a taxa;
  • as despesas fixas mudarem bastante;
  • o faturamento médio cair ou subir de forma consistente.

Onde o sistema ajuda

No LinceIA, o preço de custo e o preço de venda ficam no cadastro do produto, por loja, e a margem aparece calculada sobre o custo (o mesmo que o markup deste artigo). As taxas da maquininha e a comissão por categoria também ficam configuradas, e o DRE mostra no fim do mês se a margem que você planejou é a que aconteceu de verdade.

O cálculo do preço continua sendo seu. O sistema mostra se ele está funcionando.