O crediário próprio vende óculos para quem não tem limite no cartão, ou não quer comprometer o limite. Em muitas cidades, é ele que fecha a venda de um multifocal que, à vista, ficaria para depois.
Só que o crediário tem um custo que não aparece no dia da venda. Ele aparece meses depois, na parcela que atrasou, na que nunca foi paga e no tempo que alguém da loja gastou cobrando.
Este artigo mostra como fazer essa conta, como colocar o custo no preço e como reduzir o risco.
O que o crediário custa de verdade
A sensação é de que o crediário "não tem taxa", porque não há maquininha no meio. Mas ele tem três custos.
1. O dinheiro chega depois
Uma venda de R$ 1.200 em 6 parcelas de R$ 200 coloca R$ 200 no caixa por mês, durante seis meses. Enquanto isso, a loja já pagou o laboratório, a armação, a comissão e o imposto.
Esse dinheiro que ainda não entrou tem custo: é o que você pagaria num empréstimo para cobrir o caixa, ou o que ele renderia aplicado. Usando 2% ao mês como exemplo, as seis parcelas de R$ 200 valem hoje:
200 × (1 − 1,02⁻⁶) ÷ 0,02 = R$ 1.120,29
Ou seja: a venda de R$ 1.200 vale, na prática, R$ 1.120. A diferença, cerca de 6,6%, é parecida com a taxa da maquininha num parcelado de 6 vezes.
2. Nem todo mundo paga
Alguma parte do que é vendido no crediário atrasa, e uma parte menor nunca é paga. Não existe um número confiável para o setor, então meça o da sua loja: some o que foi vendido no crediário em um período e veja quanto ainda está em aberto 90 dias depois do último vencimento.
Se, de cada R$ 100 vendidos, R$ 5 nunca entram, são mais 5% de custo.
3. Alguém precisa cobrar
Lembrar o cliente, ligar, anotar promessa de pagamento, receber no balcão, dar baixa. Esse tempo sai da equipe, que poderia estar vendendo.
Somando os dois primeiros custos do exemplo, o crediário sai por volta de 11,6% da venda. Mais caro que o cartão, se o preço for o mesmo.
Crediário e cartão lado a lado
| Na venda de R$ 1.200 em 6× | Cartão parcelado (loja paga a taxa) | Crediário próprio |
|---|---|---|
| Taxa da maquininha | ~7% (exemplo) | Não tem |
| Custo do tempo | Não tem, se a maquininha antecipar | ~6,6% (a 2% ao mês) |
| Calote | Risco da operadora | Risco da loja (~5%, exemplo) |
| Trabalho de cobrança | Nenhum | Da equipe |
| Cliente sem limite no cartão | Não compra | Compra |
A última linha é o motivo para ter crediário. As outras são o motivo para cobrar por ele.
Como calcular o preço a prazo
A Lei 13.455/2017 permite cobrar preços diferentes conforme o prazo de pagamento, desde que o desconto esteja informado de forma visível. Então a loja pode ter um preço à vista e um preço no crediário.
Para cobrir o custo do tempo, a parcela é calculada pela fórmula de prestações fixas (a tabela Price):
Parcela = valor à vista × taxa ÷ (1 − (1 + taxa)⁻ⁿ)
Com R$ 1.200 à vista, 2% ao mês e 6 parcelas:
1.200 × 0,02 ÷ (1 − 1,02⁻⁶) = R$ 214,23 por mês
Total a prazo: R$ 1.285,38
Para cobrir também uma perda esperada de 5%, divida a parcela por 0,95:
214,23 ÷ 0,95 = R$ 225,51 por mês
Total a prazo: R$ 1.353,06
Com esse preço, se tudo correr como o previsto, a venda no crediário rende o mesmo que a venda à vista. O simulador de crediário faz essa conta com o valor, o número de parcelas e as taxas da sua loja.
A forma de apresentar e de cobrar esse acréscimo no crediário próprio tem regras e limites. Antes de definir a sua política, alinhe com o contador ou com um advogado.
O que o Código de Defesa do Consumidor exige
O Código de Defesa do Consumidor tem um artigo só para vendas a prazo, o art. 52. Antes de fechar, o cliente precisa saber:
- o preço do produto em reais;
- os juros de mora e a taxa efetiva anual de juros;
- os acréscimos previstos;
- o número e a periodicidade das parcelas;
- o total a pagar, com e sem o parcelamento.
E mais duas regras do mesmo artigo:
- A multa por atraso não pode passar de 2% da parcela.
- O cliente pode quitar antes, total ou parcialmente, com redução proporcional dos juros.
Na cobrança, o art. 42 proíbe expor o cliente ao ridículo ou constrangê-lo. Cobrar na frente de outros clientes, ou insistir de forma que constranja, é exatamente o que a lei veda.
Na prática, um comprovante simples resolve a primeira parte: valor à vista, valor a prazo, número de parcelas, valor e data de cada uma, assinado pelo cliente.
Cinco regras que reduzem a inadimplência
1. Sempre com entrada. Uma entrada de 20% ou 30% faz o cliente se comprometer e reduz o que fica em risco. Muitas óticas já pedem um sinal na abertura da OS; no crediário, ele é ainda mais importante.
2. Prazo curto. Quanto mais longo o parcelamento, maior o custo do tempo e maior a chance de a vida do cliente mudar no meio do caminho. Cinco parcelas arriscam bem menos que dez.
3. Limite por cliente. Defina quanto cada cliente pode ter em aberto. Cliente novo começa com um limite menor; quem pagou tudo em dia ganha mais. E o limite vale para a soma de tudo o que ele deve, não só para a compra de hoje.
4. Cadastro completo e conferido. CPF, endereço e um telefone confirmado na hora. Telefone errado é a primeira coisa que impede a cobrança.
5. Cobrança que começa antes do vencimento. Um lembrete um dia antes do vencimento evita boa parte dos atrasos por esquecimento. Depois, um lembrete no dia e outro alguns dias depois. Quanto mais cedo a loja age, mais fácil é receber.
O que acompanhar todo mês
Três números contam como está o crediário:
| Indicador | Como calcular | O que observar |
|---|---|---|
| Carteira em aberto | Soma das parcelas a receber | Crescendo mais que as vendas |
| Vencido por faixa | Vencido 1–30, 31–60, 61–90 e 90+ dias | Dinheiro migrando para 90+ |
| Perda real | O que ficou sem pagar 90 dias após o vencimento | Comparar com a sua previsão |
O vencido de 1 a 30 dias ainda é, quase sempre, esquecimento ou aperto do mês. Acima de 90 dias, a chance de receber cai muito. Por isso a cobrança mais importante é a da primeira faixa.
Se a perda real ficar acima do que você colocou no preço, ajuste: aumente a entrada, encurte o prazo, reduza limites ou revise a taxa.
Quando o crediário não vale a pena
Se a maior parte dos clientes do crediário tem cartão e só prefere o parcelamento da loja, talvez seja melhor oferecer o cartão parcelado e deixar o risco com a operadora. O crediário faz mais sentido para o cliente que realmente não teria outra forma de comprar.
E se a loja não tem fôlego de caixa para esperar meses pelo dinheiro, um crediário grande pode faltar no aluguel, mesmo dando lucro no papel.
Como o LinceIA trata o crediário
No LinceIA, o crediário é uma forma de pagamento da venda e do sinal da OS: você informa o valor, as parcelas e o primeiro vencimento, e cada parcela vira um título em Contas a Receber. O cadastro do cliente tem um limite de crediário, que considera tudo o que ele tem em aberto, em todas as lojas. A tela mostra o total a receber e o vencido por faixa, e a baixa aceita pagamento parcial, juros, multa e desconto, digitados por quem recebe.
Com o módulo de mensagens automáticas disponível em Integrações, a loja também pode ligar lembretes de parcela pelo WhatsApp (antes, no dia e depois do vencimento), que levam só o saldo que falta e não saem se a parcela já foi paga. O passo a passo está em Crediário e contas a receber. O sistema não calcula juros de atraso sozinho e não imprime carnê.