O cliente entrega a receita, e alguém do balcão precisa transformar aquele papel em um pedido de lente. Para quem está começando na ótica, a folha parece um código: OD, OE, sinais de mais e de menos, um "×" no meio, números com vírgula.
Não é difícil. São poucos campos, e cada um diz uma coisa só. Este guia explica o que cada um significa, como ler um exemplo do começo ao fim e o que conferir antes de abrir a ordem de serviço.
Um aviso que vale para o artigo inteiro: a receita é do profissional que a assinou. O papel do balcão é ler, copiar com exatidão e transformar em lente. Não é interpretar a visão do cliente, nem mudar valores.
Como a receita é organizada
Quase toda receita de óculos tem o mesmo formato: uma tabela com uma linha para cada olho e, às vezes, um bloco para longe e outro para perto.
- OD é o olho direito. OE é o olho esquerdo. Algumas receitas usam DE ou outras abreviações, e AO quer dizer "ambos os olhos".
- Longe é o grau para enxergar à distância: dirigir, ver televisão, andar na rua.
- Perto é o grau para leitura e celular. Aparece quando há adição (veja abaixo).
As colunas são quase sempre as mesmas: esférico, cilíndrico e eixo. Os valores de grau são medidos em dioptrias, de 0,25 em 0,25.
Esférico
É o grau principal da lente, e pode ser negativo ou positivo.
- Negativo (−): lentes que costumam corrigir a dificuldade para enxergar de longe (miopia).
- Positivo (+): lentes que costumam corrigir a dificuldade de foco de perto ou a hipermetropia.
Quando aparece "plano", "pl" ou 0,00, quer dizer que não há grau esférico naquele olho.
O sinal é tão importante quanto o número. −2,00 e +2,00 são lentes opostas. Uma receita com o sinal apagado ou em dúvida não deve ser "adivinhada": confirme com quem prescreveu.
Cilíndrico e eixo
O cilíndrico é a parte da lente que corrige o astigmatismo. Também tem sinal e também vai de 0,25 em 0,25.
O eixo diz a direção em que o cilíndrico atua. É um ângulo, de 0 a 180 graus, escrito depois do "×" ou na coluna "eixo". Ele não tem sinal e não é dioptria.
Duas regras práticas:
- Eixo só existe com cilíndrico. Se a receita tem eixo mas não tem cilíndrico, algo está faltando.
- O eixo é diferente em cada olho. É comum o direito e o esquerdo terem eixos bem diferentes. Trocar os dois é um dos erros que mais causam refação, justamente porque os números parecem certos.
O cilíndrico pode vir escrito como negativo ou positivo, dependendo de quem prescreveu. As duas formas descrevem a mesma lente. Para passar de uma para a outra, veja o passo a passo de transposição de receita.
Adição
A adição é o grau a mais que se soma ao grau de longe para formar o grau de perto. Aparece em receitas de quem precisa de ajuda extra para ler, o que é comum a partir dos 40 e poucos anos (presbiopia).
Ela é sempre positiva e muitas vezes vem escrita uma vez só, valendo para os dois olhos.
A conta do grau de perto é:
Esférico de perto = esférico de longe + adição
O cilíndrico e o eixo de perto são os mesmos de longe.
Por exemplo: longe −1,00 −0,50 × 90 com adição +2,00 dá perto +1,00 −0,50 × 90.
A adição pode virar uma lente multifocal, uma bifocal ou um óculos só para perto. A escolha entre elas é conversa de venda, com o cliente, a partir da receita. Para conferir a conta do grau de perto, use a calculadora de receita de perto.
DNP e altura
Estes dois valores quase nunca estão na receita. Eles são medidos na ótica, com a armação escolhida, e são tão importantes quanto o grau.
- DNP (distância naso-pupilar) é a distância, em milímetros, do centro do nariz até o centro da pupila. É medida para cada olho. Em adultos, costuma ficar por volta de 30 mm.
- DP é a distância entre as duas pupilas, a soma das duas DNPs. Dividir a DP por dois só funciona em quem tem o rosto simétrico, o que quase ninguém tem.
- Altura é a distância da pupila até a borda de baixo do aro, medida com a armação no rosto. É essencial em multifocais.
Quando a receita traz uma DP, copie como está e meça a DNP de cada olho na loja.
Outros campos que podem aparecer
- Prisma e base. São menos comuns. Quando aparecem, vão para o laboratório exatamente como estão escritos.
- Observações. Tipo de lente sugerida, uso (para computador, para dirigir), recomendações. Leia sempre, porque às vezes está ali a informação mais importante do pedido.
- Data, validade, nome e registro do profissional. Copie todos. A data da receita é o que permite saber, mais tarde, quando o cliente pode precisar de uma nova.
Um exemplo, linha por linha
Imagine esta receita:
| Esférico | Cilíndrico | Eixo | |
|---|---|---|---|
| OD | −2,25 | −0,75 | 180 |
| OE | −1,75 | −1,25 | 10 |
| Adição | +1,50 |
Lida em voz alta:
- Olho direito: menos dois e vinte e cinco esférico, menos zero setenta e cinco cilíndrico, eixo cento e oitenta.
- Olho esquerdo: menos um e setenta e cinco esférico, menos um e vinte e cinco cilíndrico, eixo dez.
- Adição de mais um e cinquenta para os dois olhos.
O grau de perto, pela conta da adição:
- OD perto: −2,25 + 1,50 = −0,75 −0,75 × 180
- OE perto: −1,75 + 1,50 = −0,25 −1,25 × 10
Faltam DNP e altura, que serão medidas na loja depois que o cliente escolher a armação.
O que conferir antes de abrir a OS
Uma checagem de um minuto, toda vez:
- Está legível? Número em dúvida não se completa. Pergunta-se a quem prescreveu.
- Todo valor de grau tem sinal? Esférico e cilíndrico sem sinal são um risco.
- Todo cilíndrico tem eixo, e todo eixo tem cilíndrico?
- OD e OE estão no lugar certo? Leia a receita em voz alta e compare com o que foi digitado.
- Os valores estão no passo de 0,25? Um −1,30, por exemplo, não existe: provavelmente é −1,25 ou −1,50 mal escrito.
- A adição está anotada? E o grau de perto confere com a conta?
- Data e validade copiadas?
Essa leitura em voz alta, comparando o papel com a tela, elimina boa parte dos erros de transcrição. O artigo sobre o que registrar na ordem de serviço mostra o resto dos campos que a OS precisa ter.
Graus altos pedem um cuidado a mais
Em graus mais altos, detalhes que não importam em uma receita leve começam a importar: a espessura da lente, o tamanho do aro e até a distância entre a lente e o olho, que muda o efeito do grau.
Não é para o balcão recalcular a receita. É para saber que esses casos merecem uma conversa com o laboratório e uma escolha de armação mais cuidadosa. As ferramentas de espessura da lente e de distância vértice ajudam a entender o tamanho do efeito, e o artigo sobre lente de alto índice mostra como explicar as opções ao cliente.
O que o balcão não faz
Algumas frases devem ficar fora do atendimento, mesmo com boa intenção:
- "Seu grau aumentou muito." Comparar receitas é útil para a loja, mas avaliar a visão do cliente é papel do profissional de saúde.
- "Dá para fazer com um pouco menos de grau." A receita não se ajusta no balcão.
- "Isso aqui é astigmatismo forte." Explicar o que cada campo da receita significa ajuda o cliente. Dar um parecer sobre a visão dele, não.
O que o balcão faz muito bem: explicar as opções de lente, armação e tratamento que atendem àquela receita, com preços claros.
No sistema
No LinceIA, a receita fica na ficha do cliente e pode ser usada em quantas OS forem precisas. A grade tem longe e perto para cada olho, com esférico, cilíndrico, eixo, altura e DNP. Ao digitar a adição, o sistema calcula o esférico de perto e copia o cilíndrico. Valores fora do padrão, como um eixo acima de 180 ou um grau fora do passo de 0,25, aparecem destacados antes de salvar.
A DNP e a altura de longe também podem ser medidas pela foto do celular, com a armação no rosto do cliente, em uma função ainda em beta. Em todos os casos, quem confirma os valores é o óptico.